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JOANA CARDOSO


PORTO,PT
27 anos, plus-size blogger e fotógrafa

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Women's March



Pensei muitas vezes, respirei fundo umas quantas outras, no fim decidi que não faz mal falar sobre isto no blog, tornar o blog mais interventivo, mais pessoal, menos normalizado e fugir aos temas comuns mesmo sabendo que este tema cai bem dentro lifestyle porque isto para mim faz parte também de quem eu sou.
Com 26 anos não tenho medo de revolucionar o que para aqui trago, levar algo mais íntimo a público e dizer sem papas na língua nem num tom baixinho que sim, sou feminista! Feminista que sou segui de perto a Women's March, não fui à que houve no Porto (por razões pessoais que nada tinham a ver) mas seguir de coração aos pulos o desenrolar do movimento.

Não gosto, de facto odeio até ver o modo como a comunicação social pegou nesta marcha e chamou-lhe um "protesto contra Donald Trump". Não, não é assim! Foi uma marcha, um protesto civilizado, isso sim, contra as ideias que o presidente poderá vir a impor juntamente com quem o rodeia, mas foi também uma chamada de atenção para o facto de que existem ainda muitos direitos a serem reivindicados pelas mulheres e por muitas pessoas em geral. Afinal os direitos das mulheres são direito humanos, e ponto final! Esta marcha não foi apenas política, não se cingiu unicamente a Washington e aos Estados Unidos, mas acabou de facto por se tornar numa força motivadora para muitas mulheres por esse mundo fora, e homens também, passarem a estar mais cientes que existem direitos fundamentais, de igualdade entre géneros, raças, crenças e afins, que são urgentes de serem postos em prática.



Em Portugal não existe uma tão grande disparidade em certas áreas. No emprego o salário costuma ser base, não em função do nosso sexo, porém muitas de nós, mulheres, somos rejeitadas para cargos apenas por sermos isso mesmo, mulheres! Quantas colegas e amigas já não receberam a típica resposta de "Desculpe, mas estamos à procura de candidatos masculinos", numa área na qual se licenciaram, mestraram, doutoraram, na qual têm a mesma capacidade de um homem e mesmo assim são postas de parte pelo simples facto de serem mulheres. 
Eu mesma, como fotógrafa, numa equipa só de mulheres, já ouvi demasiadas vezes a história de "deviam ter um homem para falar por vocês" ou "deviam ter um homem para vos proteger". Desculpem? Eu tenho duas mãos, duas pernas, uma boca. Mesmo que tivesse alguma deficiência física (a não ser que totalmente incapacitante) nunca precisaria de ter exclusivamente um homem para me defender, porque me posso defender sozinha, porque outra mulher me pôde defender.

Quero deixar claro que ser feminista e todo o meu discurso nunca foi, nunca será e nunca permitirei que me acusem que sou contra os homens. Meus caros, adoro homens, tenho homens sem os quais não viveria. Quero ter um homem na minha vida, companheiro, para ser pai dos meus filhos, que me ame e que eu ame de volta. Quero um homem que me proteja porque ele quer, não porque a sociedade o obriga. Quero um homem que eu possa proteger, amparar e ajudar. Ser feminista é pedir para as mulheres os mesmos direitos que eles têm mas também dar-lhes a eles o que eles não têm, é colocar-nos no mesmo patamar, no mesmo pé de igualdade.



Ser feminista é também querer que eles não sofram de escárnio por serem vítimas de abusos físicos ou sexuais, é querer que eles tenham locais, portos de abrigo aos quais possam recorrer quando eles são vítimas. Ser feminista é desejar que aquilo que nós temos, que nos dá alguma segurança se nos virmos numa situação aflitiva, seja também algo que eles tenham e possam ter sem medo, sem vergonha.

Politicamente falando, a nível dos Estados Unidos, as mulheres juntaram-se nesta marcha para mostrar ao seu presidente, e pelo mundo fora uniram-se para mostrar aos líderes mundiais, que temos de ter igualdade na liderança, na sociedade e na aprovação ou retrocesso de leis que implicam e põe em perigo os nosso direitos físicos e mentais.

My body, my rules. Isto deveria ser assim, deveria, mas nem sempre é. Quando se trava o planeamento familiar, o acesso a métodos contraceptivos e de saúde, quando dizemos a uma mulher o que ela deve fazer com o seu corpo ou que terceiros têm mais poder sobre as suas decisões do que elas mesmas (falo, por exemplo, do aborto), estamos a recuar décadas, décadas de luta, lágrimas, sangue e batalha. Estamos a riscar as batalhas e marchas e direitos conseguidos por mulheres que nos antecederam, mães, avós, bisavós e todas mais.

My choices, my rules, no momento em que eu posso andar como quiser sem "estar a pedi-las", no momento em que escolho usar bikini ou burkini, no momento que em nada minha vida deve minar as minhas oportunidades que devem ser justas e iguais para todos. Quanto digo todos, digo todos mesmo! Mulheres, homens, brancos, negros, homossexuais, bissexuais, transsexuais, heterossexuais, imigrante, emigrantes, deficientes, nacionais, religiosos, não-religiosos...uff, todos, mesmo todos!

My life, my rules, na medida em que não sou mais ou menos feminista se quiser ser dona de casa, mãe, ficar com o nome do meu marido, ou então não fazer nada disso e ter uma carreira de sucesso (ser mãe nunca implica prescindir da carreira, diga-se já), ser solteira a vida inteira ou ter vários parceiros sexuais, viver sozinha, acompanhada, numa cabana no meio do nada ou numa mansão. A minha vida é minha, e desde e quando a minha liberdade não interfira com a de nenhum outro, pretendo vivê-la como eu quero, segundo as minhas regras (sem anarquismo) e lutando para que todos possam fazer o mesmo.

Podia ficar aqui horas a escrever, dias a discursar e a dar-vos mil razões e mais algumas para serem feministas, para abraçarem sem medo esta palavra e sem a temerem quando a digam alto em frente a quem quer que seja. Porém fico-me por aqui, por agora, talvez este seja o arranque de mais conteúdo dentro do género, mais intervenção,menos medo. Esta Women's March começou com um propósito mas depressa se tornou em algo mais e acordou em muitas pessoas, especialmente mulheres é certo, a necessidade e vontade de tal como muitas outras antes de nós, lutarmos pela perpetuação dos nossos direitos já adquiridos e de conseguirmos fazer valer os direitos que ainda nos faltam.


Como mulher, como feminista, como ser humano informado agradeço a todas as mulheres que lutaram para que a minha voz fosse ouvida, para que eu pudesse estudar, pudesse votar, pudesse andar na rua e fazer o que quero sem consentimento prévio masculino. Mulheres como Susan B. Anthony e Alice Paul (pelo direito de voto), Elizabeth Stanton (pelo direito a trabalhar), Maud Wood Park, Rose Schneiderman, mulheres que incentivaram outras mulheres noutros países a lutar pelos mesmos direitos. Em Portugal agradeço a mulheres como Ana de Castro Osório, Adelaide Cabete, Carolina Beatriz Ângelo ou Maria Veleda, que impulsionaram os direitos da mulher e feminismo por cá.

Muitas de nós nascemos já no pleno direito de muitos dos direitos que conhecemos (voto, estudo, trabalho), mas não podemos ficar de braços cruzados, cabe-nos a nós, mais do que nunca, lutar por manter o que temos e pedir o que nos falta. Igualdade é para todos, não somos menos que ninguém nem queremos que ninguém seja menos do que nós.



Fotos GettyImages

2 comments

  1. Já tinha lido este texto quando o publicaste - papei-o todo no telemóvel! - e deixei o comentar para depois. Há que assumir os nossos ideias e acho fantástico que usemos as nossas plataformas para isso. E sim, somos feministas, e com orgulho! Porque ser feminista não é, de todo, ser contra os homens, mas sim defender que somos todos humanos!

    Jiji

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