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JOANA CARDOSO


PORTO,PT
27 anos, plus-size blogger e fotógrafa

A Bela e o Monstro



Por norma não trago para o blog tantas reviews de filmes e livros quanto gostava, isto porque afinal gosto de falar apenas sobre o que me apaixona e na verdade pode tornar-se chato ouvir apenas coisas boas sobre um filme ou um livro. Mesmo assim hoje decidi vir falar sobre o filme da Bela e o Monstro, afinal vocês sabiam bem o quanto eu andava ansiosa para que chegasse a estreia deste filme. Muito provavelmente já sabem o veredicto final mas mesmo assim aconselho-vos a ler, há sempre pontos negativos e positivos mesmo em coisas que adoramos.

Vamos lá a saber então. A Bela e o Monstro sempre foi o meu conto de fadas favorito, culpa da versão maravilhosa de 1991 da Disney. Apesar de fisicamente me identificarem com a Branca de Neve e o meu filme favorito da Disney ser, sem sombra de dúvida, o Rei Leão, para mim a Bela e o Monstro continuou sempre a ser o meu conto de fadas predilecto, afinal consigo identificar-me tão bem com a Bela (Belle)...especialmente na parte da livraria que até neste filme me deixou sem fôlego e a sentir fraca - qualquer dia arranjo um "monstro" para me dar uma biblioteca assim ou arregaço as mangas e dou-me esse presente megalómano a mim mesma.



Claro que excitação era enorme, a ansiedade também e obviamente que eu tinha de ir ver o filme à primeira oportunidade e isso acabou por apenas acontecer na segunda-feira, mas mesmo assim valeu a espera.

Apetece-me ir por tópicos, acho que não consigo resumir tudo em meia dúzia de parágrafos confusos e há em pouco mais de duas horas de filme imensas coisas que merecem ser mencionadas. O post é capaz de ficar um bocadinho grande mas acho que vão gostar. A partir deste ponto irão existir spoilers, portanto mesmo conhecendo a história e o seu final, fica ao critério de cada um saber se quer ou não saber de antemão as mudanças e semelhanças relativas ao clássico de animação de 1991.

Coisas que podemos falar sem grandes preocupações: este filme continua a ser um filme musical e de facto não fazia sentido ser de outra maneira. Depois de músicas tão memoráveis como Be Our Guest (PT) e Tale As Old As Time (PT), não ter um filme com esses clássicos seria um crime! E claro está...eu sou a louca dos musicais.



EFEITOS ESPECIAIS E DECORAÇÃO

Posso dizer que durante os trailers o meu nariz torceu muito com o que parecia ser CGI/efeitos especiais muito forçados mas que na verdade se concretizaram bastante melhor no filme do que aquilo que esperava. Funciona tudo imensamente bem e se houve imensas críticas à modificação de muitas personagens da versão animada para esta versão live-action, a verdade é que no fundo estas alterações dão um ar mais realista ao filme, o que é necessário quando se conjuga pessoas reais a objectos com características humanas.

Houve imensa coisa que foi trazida também das adaptações teatrais que a história teve ao longo dos anos, como por exemplo o facto dos objectos irem perdendo mobilidade e características humanas ao longo da história (enquanto as pétalas vão caindo), levando ao suposto clímax em que os mesmos se tornariam objectos inanimados para sempre.

Também a modificação das personagens-objectos ajudou a manter uma decoração muito coesa que se prende com o estilo barroco-rococó que é dado a todo o filme. A história acontece ali por meados do século XVIII, no final do barroco e no início do rococó, extremamente francês, e a cena inicial com o baile ao estilo corte de Luís XVI (com grande vestidos e as famosas perucas, e a maquilhagem tão típica) é um bom apontador da era em que a história se passa. Assim sendo os objectos tiveram toda uma reformulação para encaixarem nesta transição de estilos com imensos dourados, contorcidos e decoração sumptuosa. 

Já no filme original se falava da fachada estilo rococó minimalista ou a famosa frase "If it's not baroque don't fix it" dita pelo Cogsworth/Horloge (Relógio).

Podemos ainda meter o Neo-classicismo ali pelo meio, talvez um pouco mais na parte da guarda-roupa mas isso talvez já fosse esticar um bocadinho a corda e a apaixonada por História da Arte em mim acaba já aqui com a conversa.


Outro ponto importante de CGI é o Monstro, a Besta se preferirem. Na verdade no filme os efeitos especiais utilizados encaixam bem em todo o ambiente. Se o Dan Stevens, que faz o papel de monstro, era apenas para usar próteses e imensa maquilhagem, a verdade é que apesar de tudo isso acabou ainda por sofrer efeitos especiais na pós-produção em termos faciais. 

Algumas pessoas, e eu sou uma delas, digo que o Monstro desta versão é bastante...well, atraente. Nada de zoofilia aqui, e ele é altamente peludo, mas tem ainda imensas características humanas e pronto, é um monstro bem giro. Para além disso conseguiram captar e manter imensamente bem muitas das expressões faciais do Dan, que achei super reconhecíveis especialmente para quem viu Downton Abbey (como eu). #TeamBeast?


HISTÓRIA

Claro que todos conhecemos a história da Bela e O Monstro, é algo muito intemporal e que todos conhecemos através de livros ou pelo próprio filme da Disney dos anos 90 (ou todos os outros que foram feito ao longo do último século) mas esta nova versão, como todas as versões teve as suas alterações e histórias paralelas mesmo que acabe do mesmo modo.

Nesta versão, e sabendo que foi realmente ideia da própria Emma Watson, a Bela é a inventora enquanto que o Maurice, o seu pai, é pintor. Temos assim uma Bela mais independente e com uma história que mostra bem o porquê de todos na vila aonde vive a acharem estranha, para além de ser uma mulher que sabe ler num meio pobre e ter uma paixão por livros e histórias, algo que no século XVIII era obviamente mal visto. Houve ainda mais modificações, por exemplo a nível estético, de vestuário e afins, mas não acredito que tenham feito a mais mínima diferença no filme a na história em si. Nesta versão a Bela continua a ser uma leitura ávida e tem uma paixão especial por Shakespeare, sendo o seu romance favorito Romeu e Julieta (tanto que o Monstro goza com ela, preferindo ele outros livros e romances...como Guinevere e Lancelot). Esta Belle mostra um lado ainda mais feminista do que a personagem da versão dos anos 90, mesmo que de um modo muito subtil e uma vez mais influência da própria Emma.

Neste caso a Bela também tem mais história que nos anos 90. Neste caso ela nasceu em Paris e foi levada pelo Maurice, o pai, para Villeneuve (deram este nome à vila em homenagem a Gabrielle-Suzanne de Villeneuve). Sabe-se mais tarde na história que a mãe da Bela morreu devido à praga (não sei se a Praga de Marselha, o que não faria sentido em Paris, ou a um foco localizado da Peste Negra, algo que aconteceu ao longo dos séculos).

Temos ainda a história mais aprofundada do Príncipe/Monstro, que desta vez é bem mais educado do que na versão animada, pelo menos em termos de estudo, o que faz sentido ao ser um príncipe. Também se conta a história da sua infância, como perdeu a mãe e teve um pai horroroso que fez dele o homem maldoso em que se tornou ao crescer e lhe valeu a maldição. Estas pequenas adições ao clássico dão-nos uma visão mais próxima à vida do Monstro e a sua evolução. Nesta versão percebemos ainda como ninguém se lembrava de um príncipe e um castelo no meio de França, o que para alguém mais crescido era algo que deixava imensas dúvidas no clássico animado.

Juntamente com o Monstro temos os seus criados, os objectos com vida que são vítimas da mesma maldição que o Príncipe. Nesta versão os criados têm pequenas histórias paralelas, pelo menos percebemos isto já no final do filme o que resultou em situações caricatas e boas gargalhas, especialmente com a personagem do Cogsworth interpretada pelo Ian McKellen. Temos o romance entre o Lumière e a Babette que nesta versão se passa a chamar Plumette (a espanador), o casal Madame Garderobe (o guarda-roupa) e o Maestro Cadenza, e claro está a dupla mais amorosa da Mrs.Potts (Madame Samovar) e o pequeno Chip. Há uma parte muito emocional no filme em que é dito que eles se transformaram juntamente com o príncipe uma vez que o conhecem desde criança e deixaram que ele se tornasse num adulto horrível uma vez que nunca tentaram fazer nada para impedir o seu pai de lhe dar a educação que deu, sendo que os mesmos se sentem responsáveis pela maldição que caiu sobre todos no castelo.



Depois temos a grande história do Gaston e do Le Fou que nesta versão foi um tema muito central e polémico uma vez que pela primeira vez num filme, a Disney decidiu ter pelo menos uma personagem gay, mesmo que não totalmente assumida.

Mesmo assim o Le Fou é bastante diferente nesta versão, mesmo andado sempre atrás do Gaston e idolatrando o seu Capitão, ele é também aquele que manda umas piadas e verdades dissimuladas sobre o Gaston, sobre o facto de ele ser um bruto que nada tem a ver com a intelectual da Bela, e que acaba por perceber já quase no final que afinal há um monstro e que esse monstro não é quem as pessoas pensam...sendo o monstro o próprio Gaston. O Le Fou tem uma série de trejeitos que revelam a sua homossexualidade, e no fim acaba por ficar a dançar com um outro homem mesmo que seja uma cena obviamente estranha para o dois. O rumor do beijo não se concretizou mas tudo isto mostra já uma certa abertura por parte da Disney, o que é sempre positivo.

Já o Gaston é o mesmo bruto de sempre, e de facto eu sempre gostei do Gaston - num estilo "hate to love you" - porém desta vez o Gaston tem um bocadinho mais de backstory, sendo que voltou da guerra (suponho que a Guerra da Sucessão Austríaca, que seria a única a coincidir no espaço temporal da história, uma vez que a Revolução Francesa se deu já na última década do século XVIII) como Capitão. O Gaston desta versão é também mais cruel, especialmente quando amarra o Maurice numa árvore para ser comido por lobos, antes da cena em que o envia para o manicómio, tal como na versão animada. Este Gaston sofre também de alguns problemas mentais induzidos possivelmente pela Guerra, sendo que perde facilmente o seu temperamento, é ainda muito bom a manipular pessoas e basicamente tem uma história mais aprofundada que assenta super bem nesta versão.

A Feiticeira, que amaldiçoa o príncipe aparece mais nesta história, especialmente porque tem um papel importante no final do filme, sendo que na versão animada ela apenas aparece na história inicial sem grande importância. Nesta versão ela aparece logo no início como a idosa que busca refúgio e que após recusa se transforma numa lindíssima mulher. Porém nesta mesma versão ela é também uma mulher da vila, uma pobre solteirona, que vive no meio do mato e pede esmola na rua, de seu nome Agathe. No final da história todas as pétalas caiem antes da Bela declarar o seu amor pelo Monstro, os objectos tornam-se totalmente inanimados e é aqui que a Agathe/Feiticeira aparece e repõe tudo ao seu estado original, transformado o Monstro de volta a Príncipe, os objectos de volta a criados humanos e restaura a memória de todos as pessoas da vila que não se lembravam do reinado nem do castelo.




INTERPRETAÇÕES

Neste tópico vou pegar nos actores principais um a um e dar uma opinião curtinha sobre as suas performances...de modo mais ou menos entusiasta porque sou eu e só podia ser assim.

EMMA WATSON - BELLE
Houve quem dissesse que o seu desempenho foi medíocre mas para mim acho que foi perfeito para a história e a sua personalidade encaixa super bem na história e na própria maneira de ser da personagem. Surpreendeu na parte musical e sem dúvida que deu o seu toque a esta Princesa e a este conto-de-fadas, algo que acabou por ser um ponto fundamental para o decorrer da história e das alterações que foram feitas neste filme em termos de argumento.


DAN STEVENS - MONSTRO/BEAST
Apesar de na maioria do filme ele ter sido modificado para a sua forma mais "bestial" acho que ele teve um bom desempenho. Há imensas expressões do actor que transparecem no filme, e nas partes do Príncipe achei que ele deu um toque bastante bom a toda a ideia do homem cruel que passa a entender o amor e toda essa história bonita.

LUKE EVANS - GASTON
Eh.....coise e tal eu acho-o giro como tudo e pronto. Como disse acima eu tinha aquela relação de "vilão que odeio por adorar tanto" com o Gaston desde os anos 90 e com mais história sobre a personagem acho que passei a gostar ainda mais. Acho que não podiam ter escolhido melhor, ele conseguiu uma personagem que conseguimos adorar e odiar em igual medida.


JOSH GAD - LE FOU
Nunca gostei muito do Le Fou original mas com o Josh Gad e com toda a história (gay ou não gay) e com as "mancadas" ao Gaston ao longo da história, fizeram-me adorar esta interpretação. Ok, não consigo desligar que ele fez a voz do Olaf no Frozen e enfim...não dá para dissociar.

MAURICE - KEVIN KLINE
Eu gostava do Maurice fofinho e gordinho do original, assim totalmente trapalhão e amoroso e isso foi muito mudado, não que não tenha tido uma óptima prestação, com mais história como o amor pela mãe da Belle e tudo o resto, mas teve um tempo de "antena" curto. Apesar de tudo foi uma boa mudança, mesmo que drástica.

EWAN MCGREGOR - LUMIÈRE
Eu nem devia abrir a boca, eu amo o Ewan...ele fez de Christian no meu amado Moulin Rouge, ele foi o Obi-Wan Kenobi no Star Wars, ele é maravilhoso como só ele sabe ser e eu só descobri no fim que ele era o Lumière e quase dei um gritinho estilo fangirl no cinema. Eu sou suspeita mas ele deu um Lumière fantástico, com um sotaque super engraçado e com interpretações musicais que sinceramente são o que se espera sempre dele.

IAN MCKELLEN - COGSWORTH
A primeira coisa que a minha mãe disse mal viu os objectos de regresso ao seu estado humano foi "Olha o barbudo do Senhor dos Anéis", traduzindo: O Gandalf. Ele fez muito bem o papel de Relógio, tal como na versão animada, o Cogsworth é um medroso, que se acha fantástico e de nariz empinado, apesar de ser muito fiel e na verdade alinhar em todas as loucuras.

EMMA THOMPSON E NATHAN MACK - MRS.POTTS E CHIP
Continuo a gostar, visualmente, da Mrs.Potts e Chip original, mas claro que a Emma é maravilhosa, doce e isso nota-se até quando faz de pote de chá! O Chip nesta versão é mais atrevido mas um amor de miúdo, quer em formato chávena ou em formato menino e claro que relação da Mrs.Potts e do Chip é daquelas coisas que nos aquece o coração.

AUDRA MCDONALD E STANLEY TUCCI - MADAME GARDEROBE E MAESTRO CADENZA
Ela é das maiores divas da Broadway actual e ele já fez papéis memoráveis num sem fim de filmes. Eu gosto da Audra deste o filme musical Annie dos anos 90 (um dos vários remakes, também da Disney) e claro que já sabia a sua capacidade vocal, o que assenta que nem uma luva no papel de Madame Garderobe que passa de cantora da corte a guarda-roupa ao estilo diva. O Stanley dá um toque especial ao Cadenza, com um sotaque que tem imensa piada, um espírito também de diva, tal como a sua esposa Garderobe. E claro, os dois são os "pais" do FrouFrou, o cãozinho que passa a ser um pousa-pés.

GUGU MBATHA-RAW - PLUMETTE
A Plumette (Babette nos anos 90) tem mais tempo de "antena" neste filme para além do seu romance dom o Lumière. Não conheço o trabalho da Gugu mas achei um mimo.



CONSIDERAÇÕES FINAIS E MUSICAIS

A maioria das músicas foram mantidas do clássico da Disney, com poucas alterações à sonoridade ou letra, sendo que Alan Menken continuo a ser o compositor que fez juntamente com Howard Ashman a banda sonora de 1991, sendo que Howard foi quem escreveu as letras das músicas que adoramos (Howard morreu em 1991 e diz-se que a personagem de La Fou ser gay poderá ter sido uma homenagem à homossexulidade de Howard que faleceu devido a complicações de SIDA). Nesta nova versão as novas letras foram escritas pelo próprio Alan Menken e Tim Rice,

Houve músicas novas compostas para o filme, como foi o caso de How Does a Moment Last Forever, Days In the Sun ou Evermore, que vieram complementar os clássicos reutilizados.

Musicalmente brilhante, tal como se espera sempre da Disney e do próprio Menken. Podem fazer como eu e ouvir repetidamente a banda sonora no Spotify.

Ao todo achei que foi um filme maravilhsoo, bastante melhor do que aquilo que esperava de um remake live-action. Provavelmente em muito se deveu à escolha fantástica dos actores que conseguiram fazer um trabalho muito bom e que em pouco ou nada deixou a desejar, e foi para mim uma das melhores adaptações das Disney com actores reais, que conseguiu trazer alguns assuntos bastante actuais sem fugir à ideia de conto-de-fadas de época.

Aconselho a ir ver, nem que seja pela nostalgia da nossa infância e aposto que vão adorar.

1 comment

  1. Adorei ler a tua opinião, Joana! Eu sou um pouco suspeita, mas saí do cinema completamente apaixonada pelo filme!
    Sim, "A Bela e o Monstro" sempre foi dos meus clássicos preferidos, mas suponho que trabalhar para a Disney (inclusivamente num musical onde estive meses e em que existiam cenas d'A Bela e o Monstro o que fazia que eu tivesse que ouvir algumas das canções repetidamente várias vezes por dia) acabou por fazer com que ficasse ainda mais fã deste remake!

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