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JOANA CARDOSO


PORTO,PT
27 anos, plus-size blogger e fotógrafa

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13 Reasons Why


Eu andei semanas e semanas a fio a perceber se ia ou não escrever esta publicação e decidi finalmente fazê-lo. Esta resenha do 13 Reasons Why irá englobar tanto o livro como a série - sim, a série é baseada num livro - e irei dar as minhas próprias 13 razões em modo de pontos positivos e negativos, criando assim uma série de contrapontos entre a versão literária e a versão televisiva. Vou tentar ao máximo para que não haja spoilers porque na verdade se decidisse escrever aprofundadamente sobre a minha visão do tema acho que ia acabar com pano para mangas.
Tenho de começar por dar a mão à palmatória e dizer que a Netflix tem produzido séries fantásticas e que têm sido um verdadeiro sucesso - Stranger Things i'm looking at you - portanto não me espantou o sucesso desta nova série e decidi então que também a ia ver.

A meio do segundo episódio, numa primeira temporada de 13 episódios - diz-se que existirá uma segunda temporada - descobri que existia o livro e decidi parar imediatamente de ver a série. Sou do tipo de pessoas que não gosta de ler livros depois de ver filmes ou séries, raros foram os casos em que o fiz e ainda mais raras foram as vezes em que não me arrependi. Assim sendo arranjei rapidamente o livro e li-o numa questão de dias antes de acabar de ver os restantes episódios...também em pouquíssimos dias.

Agora que estamos melhor situados na "minha" breve história de 13 Reasons Why - Por Treze Razões, em português - trago-vos as minhas treze razões positivas e negativas para lerem o livro e verem a série.



A partir deste ponto poderão existir alguns spoilers em relação ao livro e à série.



Sinópse Hannah suicida-se aos 17 anos. Poucos dias depois da sua morte, Clay recebe em casa uma encomenda sem remetente: uma caixa de sapatos com várias cassetes de áudio e um mapa. Sem perceber o que se passa ele começa a ouvir a cassete assinalada como 1 - cada lado de cassete está numerada de 1 a 13 - e descobre que as cassetes contam a história de Hannah e as 13 razões que a levaram a cometer suicídio. Clay rapidamente descobre que existem mais envolvidos na história dela e que as cassetes devem ser passadas por ordem a cada um dos envolvidos nas histórias, 13 no total. Assim começa a história de uma adolescente que deixa ao mundo a sua versão da história que a levou a tirar a sua vida.



TAPE 1

Esta história envolve muitos temas actuais e polémicos, entre eles o bullying, o suicídio, o abuso sexual, abuso de álcool e drogas, entre outros. Apesar de tudo senti que apesar destes temas serem uma realidade do mundo actual e da nossa sociedade, a história se passa num contexto extremamente americano. Não quero com isto dizer que por cá não se cometam loucuras, não haja bullying - muito pelo contrário - ou suicídio ou abuso sexual, o que quero dizer é que a realidade dos liceus americanos e da vida dos adolescentes é diferente da que por cá vivemos, pelo menos para mim há 10 anos era assim. Se podemos encontrar pontos de ligação entre o lá e o cá? Claro que sim, mas não deixa de ser uma história que tudo tem a ver com a ideia de high school americano, ainda assim é uma boa chamada de atenção para alguns problemas importantes dos dias que correm.

Se é uma série para adolescentes? Talvez não, talvez sejam demasiado influenciáveis e susceptíveis a tentar replicar momentos que acabam por passar de um modo quase glamoroso, mesmo que trágico. Apesar disso nem todos os adolescentes são iguais e no fundo acredito que a série é boa mas é desaconselhada a quem estiver num estado mental mais fragilizado, mais susceptível a pensamentos e actos negativos.

Sendo que eu já estive do lado menos bom, não interessa nem como, nem quando, nem porquê, mas provavelmente na época ver este tipo de série não teria ajudado muito ao meu estado. Claro que existem outras série com cenas de suicídio explícito mas ao menos a Netflix teve o cuidado de advertir para o facto do episódio ou episódios em questão mostrarem cenas explícitas de suicídio ou abuso no início de cada episódio.

Cabe a cada um decidir se este tipo de temas e séries mais pesadas são algo que estejam dispostos a ver. A mesma coisa se aplica ao livro, apesar de ser menos gráfico, o que me leva à próxima razão...



TAPE 2

As alterações entre o livro e a série são monumentais, especialmente a partir do episódio quatro. Se por um lado entenda que uma série (ou filme) são uma adaptação e não um cópia fiel dos livros, também me pareceu que algumas mudanças eram totalmente desnecessárias.

Apesar de tudo as mudanças introduzidas fazem com que a série tenha a possibilidade de voltar para uma segunda temporada o que tem sido especulado e corrido como rumor. As alterações também tornam as temáticas mais cruéis e negras, talvez como chamada necessária de atenção para as problemáticas em questão ou talvez pelo sentido cinematográfico em que certas coisas ficam melhor em termos televisivos.

No livro a Hannah suicida-se com comprimidos, uma ideia que em televisão funcionou na primeira temporada de American Horror Story, mas a verdade é que em termos fotográficos ficou melhor a versão da série em que ela se suicida numa banheira cortando os pulsos. O facto de envolver sangue, o tom vermelho e o desespero da personagem nos seus últimos segundos de vida, acompanhado pela descoberta do corpo por parte dos pais e a carga emocional fortíssima daquela cena, foi talvez uma opção muito pensada e reflectida de modo a chocar mais, algo que é norma e que na verdade atrai mais audiência.

Muitos criticaram o facto de mostrarem explicitamente um suicídio, que tal poderia levar a que adolescentes o repetissem, mas não consigo ver as coisas por esse prisma. Nos dias que correm vemos coisas bem piores, estamos quase "vacinados" contra a realidade televisiva até de notícias verdadeiras e apesar de saber que a realidade americana pode ser diferente da nossa não acredito que o suicídio de uma personagem numa série vai desencadear uma reacção de suicídios em cadeia.


TAPE 3

Também as personagens têm mudanças do livro para a série. Mais uma vez mais compreende-se perfeitamente o porquê. Se no livro estamos focados no Clay e na história das cassetes da Hannah, na série não seria possível fazer episódios apenas focados numa personagem e em flashbacks - algo importantíssimo na série e que perfaz mais de 50% do tempo de antena - das 13 razões. Assim sendo cada personagem ganha mais vida, mais história e mais conteúdo, o que na série nos leva a relacionar com mais proximidade, de modo positivo ou negativo, com cada uma das personagens envolvidas.

Devo dizer que tanto na leitura como na visualização os sentimentos que as personagens despertam em nós conseguem chegar a extremos e falo realmente de todas as personagens, especialmente na série. Apesar de tudo tive mais compaixão pela Hannah da série do que pela Hannah do livro. Com isto não quero dizer que ninguém mereça ou deva chegar ao ponto do suicídio mas como adolescente existem muitos pontos nos quais as suas razões se tornam absurdas e mesquinhas.

Já por exemplo a personagem do Tony é muito mais intensa na série e é impossível não gostarmos dele.


TAPE 4

Casting bem conseguido. Apesar de algumas personagens parecerem um pouco mais velhas do que típicos estudantes do liceu - mas nada de muito mais velho - sinto que cada actor conseguiu desenvolver bem o seu trabalho ao redor de cada personagem e acredito que não tenha sido trabalho fácil.

Conseguir expressar certas emoções com um simples olhar por vezes pode ser complicado, não sei se foi por já conhecer a história de antemão e perceber quase de imediato o que se estava a passar, mas acho que quem viu apenas a série sentiu que não houve grandes falhas em termos de interpretação.

Palmas ainda pela diversidade cultural e racial na série, não são só "miúdos brancos" ou "loiros de olhos azuis e giros", há um pouco de tudo e isso é importante.


TAPE 5

Por favor ponham os pais a ler o livro ou a ver a série. Não estou a falar da história em si mas sim de talvez esta ser uma boa chamada de atenção para os pais que apenas conhecem a realidade dos filhos dentro de casa - e mesmo assim mal. Não quero com isto dizer que os pais, tutores ou quem quer que cuide de crianças e adolescentes deva imiscuir-se em cada detalhe sua vida, nada disso, mas perceber que a realidade nem sempre é tão linear quanto parece.

O filho mais doce do mundo em casa pode ser - e desculpem-me o termo - o maior cabrão na escola, espezinhar colegas, mal tratar, rebaixar. O mesmo se passa com miúdos educados, com boas notas ou miúdos mais taciturnos e calados. O mesmo se passa para pessoas aparentemente felizes mas que na realidade estão caídas num lugar bem escuro nos meandros mentais. Perceber que por vezes há pequenos sinais como alterações de comportamento, imagem, horários e tanto mais.

Cabe a cada um perceber que quem está ao nosso lado pode usar uma máscara tão grande ou maior do que a nossa porque sejamos sinceros, nem todos somos na rua aquilo que somos por dentro, é um mecanismo de defesa e isso não tem mal, desde e quando não nos leve a um lugar de desespero onde perdemos interesse pela vida.

Deixo aqui o aviso, se alguém desse lado estiver a passar por uma situação que sinta o mundo a fugir, o desespero e o desinteresse pela vida, venha falar comigo, mande e-mail, crie uma conta fácil, o que precisar. Estou aqui como blogger mas também como um recurso para ouvir, falar e ajudar. Não tenham medo, eu sei que é difícil, já passei por isso, mas há sempre volta a dar.


TAPE 6

Sei bem que em 10 anos desde que passei pelo liceu muita coisa mudou mas a verdade é que me chocou ver aquilo que os adolescentes são capazes de fazer, até por cá. Como disse acima e já repeti várias vezes, a realidade americana não é 100% igual à nossa mas em muita coisa se assemelha.

A verdade é que a adolescência é uma fase complicada, na qual tentamos aceitar, ser aceites, conseguirmos integração, somos susceptíveis, influenciados e tudo isto acontece mesmo quando achamos que não. No meu tempo fazíamos coisas parvas das quais pouco ou nada me orgulho nos dias que correm, mas cada vez mais ouço histórias de coisas que nunca me passariam pela cabeça durante a minha adolescência.

A série e o livro - apesar do livro ser de 2007, ou seja ter de facto 10 anos - têm muitas coisas que chocam, que mostram que miúdos e até graúdos estão dispostos a cometer loucuras para se sentirem incluídos e isto tem de mudar, tem de mudar pela maneira como fazemos os outros sentirem e como no vemos a nós mesmos. A série mostra que mesmo depois de tudo, nem sempre o que fazemos é suficiente e vemos adolescentes a caírem em dependência quer emocional, quer física e acho que mais uma vez foi algo que foi bem pegado em termos de enredo.


TAPE 7

A série dá-nos mais diversidade do que o livro. 10 anos depois do lançamento do mesmo isto seria de esperar, mesmo assim ainda existe nos dias que correm uma idealização de um sistema muito binário, de concepções muito antiquadas em termos sexuais, de identidade e tanto mais.

O 13 Reasons Why enquanto livro dá aso a uma outra mudança em termos de paradigma sexual porém a série leva isso mais longe e chega a mudar histórias de momentos e personagens para que tal seja óbvio.

Melhor ainda é como debate um tema importante como os filhos de casais do mesmo sexo e aqui não queria falar muito, mas naquele momento da série parei e fiquei orgulhosa de quem escreveu o guião por de facto tocarem num tema de um modo que mostra a realidade dos dias que correm.


TAPE 8

A série consegue colmatar certos pontos que parecem ficar em aberto no livro, porém com a necessidade de enredo para uma segunda temporada e de dar uma história a cada personagem, existe toda uma história paralela que não só adensa a trama de 13 Reasons Why como, a meu ver, parece um pouco demais.

O facto de quase todas as personagens de juntarem para "calar" uma outra, e não estou a falar da Hannah, parece algo demasiado fictício. Claro que estamos a falar de uma série, mas quando damos com um grupo de adolescentes que quer acabar com a vida de outro só para que não se saiba este ou aquele segredo, a história acaba por perder o seu lado mais real.


TAPE 9

Tanto o livro como a série me deixaram naquele patamar de "gostei, mas não adorei". Não o recomendo a toda a gente, talvez o faça a esta ou outra pessoa mais pelas problemáticas do que pela história em si. O livro é mais real, a série acaba por ser mais dramática e aqui há muito por onde pegar e pelo qual se pode escolher.

Para quem não gosta de temas pesados, personagens que nos levam do amor ao ódio e vice-versa ou com uma protagonista que nos faz sentir que o suicídio não é solução mas a vingança também não, então não recomendo este livro. Estejam preparados para diferentes emoções mesmo que não seja uma história de cinco estrelas nem algo que queiram reler vezes sem conta.


TAPE 10

As pequenas coisas que fazemos podem ter um impacto na vida de outros, isto é a linha condutora da história. Uma vez mais é a ideia de que tudo na vida é uma escolha, mas por vezes a escolha não é nossa.

As razões que levam a Hannah ao suicídio podem parecer por vezes superficiais, e talvez numa pessoa real existissem mais problema subjacentes, porém nada justifica que julguemos alguém pelas suas decisões, apenas devemos tentar, num caso real, ajudar quem nos é possível e enquanto ainda há tempo.

Os defeitos são parte do ser humano, ninguém é perfeito mas cabe-nos a nós lutar ou desistir, falar na hora certa ou não dizer nada. Mesmo que vítimas das escolhas de outros podemos, quase sempre, tomar um rumo que altere a nossa história.


TAPE 11

Não é mais um "filme para adolescentes", nem o livro, nem a série. Há substância na história, nas personagens e nas vivências que se vão acumulando ao longo de 13 Razões. Não é algo para agradar a todos mas nenhuma outra história alguma vez mostrada assim o foi.

Eu ainda hoje, mesmo passadas semanas da leitura e visualização, caio numa mistura de emoções que me deixam ainda sem perceber muito bem aquilo que sinto em relação a Por Treze Razões. Como viram até aqui há muitos pontos positivos e negativos que tive em conta mas acredito que é a predisposição e gosto de cada um, incluindo a nossa própria vida, que vão ditar a sentença final sobre o livro e sobre a série.


TAPE 12

Se por um lado um livro nos leva a imaginar cada detalhe cuidadosamente, a série também foi fantástica em termos de fotografia/cinematografia. Acho que cada cena, cada detalhe e cada momento foram muito bem conseguidos e extremamente bem filmados. No geral não senti que da transposição do livro para a série existisse algum tipo de falha no que toca a cenários, concepção de momentos ou mesmo ao mostrar uma panóplia de emoções do mais variado que possa existir.

Um livro é sempre uma viagem única e pessoal para cada um, mas mesmo assim a série conseguiu captar bem a essência da história através das imagens.


TAPE 13

Algo que o livro não tem, obviamente, uma banda sonora maravilhosa. A Netflix aposta sempre em grandes músicas e neste caso não foi excepção. Quando logo no primeiro episódio se ouviu Joy Division percebi logo que ia ser uma daquelas séries que mesmo que não valesse nenhum então ia valer pela banda sonora e realmente não me enganei.

4 comments

  1. Para ser sincera ainda não decidi se vou ver a série ou não. Sou muito emocional e este tipo de séries mexe muito comigo!
    THE PINK ELEPHANT SHOE // GANHA UM MEGA CABAZ DE VERÃO

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  2. Gostei da tua perspectiva relativamente à série e ao facto de a teres relacionado com o livro. Também prefiro sempre ler primeiro e ver depois. Acabarei, provavelmente, por ver a série. Mas até agora ainda não o fiz, apesar da curiosidade.

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  3. ainda nao a vi tambem porque quero ler o livro primeiro e pq verdade seja dita o "hype" irrita.
    quanto a ser influenciavel, acho que pode ser sim porque hoje em dia sinto que os adolescentes tao cada vez pior. nao sei explicar ou perceber mas sabes que o mundo esta todo de pernas para o ar quando sao mais os velhos de mente aberta do que os jovens. um mundo onde cada vez mais acham que é "normal" os abusos, os abusos nas relaçoes seja sexual ou psicologica, onde se resolve tudo com violencia, onde se filma essas coisas e publica, onde ha bullying ao extremo.
    isto sao coisas que claro sempre existiram, mas cada vez ta pior. cada vez subimos mais na tecnologia e menos mentalmente. cada vez tenho mais vergonha e asco de ser humana. e medo, muito medo do futuro.

    eu propria passei por muita coisa má, contemplei mesmo o suicidio varias vezes, mas sinto que em comparaçao como as coisas estao hoje foi "normal"..

    anyway ja ta praqui um rant enorme, sorry!
    quanto a tua review, gostei bastante e vou ver se dou uma chance a serie, mas la esta, primeiro livro lol .

    quanto a tematica, ja disse uma vez mas volto a mencionar que a serie my mad fat diary é excelente, e se gostas de boas bandas sonoras, vais adorar!
    se quiseres saber melhor, fiz aqui uma mini lista, onde falo mais sobre ela :D
    https://rrriotdontdiet.blogspot.pt/2017/05/top-10-series-tv.html

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  4. Vi a série pouco depois de ter saído e gostei, mas não adorei. Sinto que a série mostra o suicídio como sendo algo glamoroso, coisa que não é. Apesar disso, gostei de como a história foi contada e de como as cassetes se encaixam perfeitamente umas nas outras.

    Beijinhos,
    La La Land

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