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JOANA CARDOSO


PORTO,PT
27 anos, plus-size blogger e fotógrafa

Ataques de pânico e ansiedade



Apesar de difícil este é um tema que tenho visto com frequência em publicações de blog e vídeos, quer seja lá fora ou cá em Portugal. Pessoalmente demorei muito a escrever sobre o assunto e a decidir se havia realmente de falar sobre algo que é bastante pessoal, mas acabei por decidir fazê-lo. Na verdade os ataques de pânico e ansiedade são um mal cada vez mais comum na sociedade em que vivemos, nas gerações mais novas e sobretudo um problema mental que não devemos descurar mas do qual não devemos ter vergonha.

Não sei bem como pegar no tema, a verdade é essa, quando algo é assim tão pessoal torna-se complicado expressar em palavras aquilo que nos leva a ter estes ataques, a sentir a ansiedade crescente e a aterrar num pânico imenso muitas vezes sem sentido. Acho que vou começar pelo princípio e contar-vos momentos da minha história, talvez assim consigam entender a minha visão mais pessoal e intimista sobre o assunto, assunto esse do qual já não tenho medo de falar.

O meu primeiro ataque de pânico deu-se aos meus 12 anos, quase 13, estava eu no meu sétimo ano. Muito boa aluna, sempre habituada a ter notas altas - coisa que se manteve mais ou menos até ao fim do secundário - dei por mim ansiosamente à espera de mais um resultado de um teste de inglês. Sempre fui óptima aluna a inglês, acabei o secundário com média de 20, adoro a língua, falo fluentemente, mas naquela altura estávamos a aprender os verbos irregulares e por algumas razão ninguém estava a atinar muito bem com aquilo. Fizemos um teste geral, apenas para ver como estavam os conhecimentos dos verbos e eu senti que algo correu mal, porém para mim correr mal era equivalente a tirar um Satisfaz.

Eu fazia parte de uma turma de igualmente bons alunos, mas daqueles alunos chatos que esperam à porta da sala de professores para perguntarem as notas dos testes o quanto antes. Lá estávamos nós e a professora saí  de semblante pesado a dizer "isto não vos correu nada bem, mas não faz mal". Uma vez mais, para mim o "nada bem" era um Satisfaz. Nisto estou eu já consumida da vida quando ela se vira para mim - era um doce de professora - e diz-me "Joaninha, tiras-te negativa". Malta, o meu mundo desabou naquele momento. A minha primeira negativa, numa disciplina em que eu era comprovadamente boa. Eu só me lembro de me faltar o ar, de me encostar à parede e começar a deslizar, não ouvi mais nada, não conseguia falar e acho que perdi os sentidos por alguns segundos. Os meus colegas ficaram aflitos mas a minha aflição era ainda a minha nota.

Foi esse o primeiro ataque de pânico de outros que se viriam a dar. A melhor parte, que de melhor não teve nada, foi que eu tive 49 pontos nesse teste e para quem se lembra com 50 pontos já tínhamos Satisfaz.

O meu corpo estava a ir abaixo, a reagir de maneiras extremas e eu vi-a estas coisas a acontecerem e não dizia nada a ninguém.

Ainda me lembro do desespero que senti nesse momento, o peito apertado, querer respirar e mal conseguir, o deixar de ouvir, ver, sentir tudo a rodar. Foi aflitivo e nada que me fizessem conseguia parar isso.

Pouco depois disso, com os meus 13 anos comecei a entrar numa espiral de momentos negativos, depressão, problemas alimentares, tudo a que a adolescência tem direito.

Os ataques de pânico e ansiedade começaram a aumentar, desatava a chorar e tremer do nada, por vezes tinha ataques de riso que me deixavam fisicamente exausta e assustada porque não conseguia parar. O meu corpo estava a ir abaixo, a reagir de maneiras extremas e eu vi-a estas coisas a acontecerem e não dizia nada a ninguém.

Lembro-me da minha gata morrer à minha frente e a minha reacção foi rir, rir sem controlo algum como se fosse a coisa com mais piada do mundo. Sabem quando riem até chorar e a barriga doer, eu estava em frente dela, do corpo dela, e ria a bandeiras despregadas. Foi um dos ataques mais esgotantes que já tive.

Até à pouco tempo a minha mãe nem sabia que eu tinha ataque de ansiedade. Na verdade nunca procurei ajuda médica, nunca quis ir a um psicólogo mas na minha cabeça eu tinha todas as razões e mais algumas. Não queria gastar dinheiro em psicólogos,  não queria preocupar os meus pais, não queria tomar medicação que já os tinha visto tomar, não queria um diagnóstico exacto de depressão ou distúrbios alimentares.

A depressão de altos e baixos durante anos trazia consigo momentos de puro pânico. Por vezes dei comigo a tentar adormecer e do nada a minha cabeça desencadeava filmes megalómanos e lá começava o choro, o tremer descontroladamente, a falta de ar, aquele aperto no peito.

Nos dois últimos anos que estive na faculdade os ataques eram quase diários. Já ia na viagem a sentir-me mal, ao chegar à porta da faculdade começava a tremer. Por algumas vezes cheguei a ficar mais de meia hora a chorar na entrada da faculdade sem conseguir ir à aula, de tal ordem que me sentia ansiosa por ir para algo que não gostava, que não me fazia feliz.

A infelicidade, o medo de falhar, o ter de fazer algo obrigada, são coisas que facilmente desencadeiam em mim ataques de ansiedade ou puro pânico.

Cheguei a falar com uma professora da faculdade, sabia que a UP tinha consultas de psicologia para os alunos a preços muito reduzidos ou até gratuitos. Ela queria ajudar-me, marcar a consulta por mim. Foi provavelmente nesse dia que eu decidi que algo tinha de mudar, eu tinha de fazer com que aquelas situações, as que não fugiam ao meu controlo, fossem cada vez menores.

Como sabem congelei a matricula, comecei a ser feliz, rodear-me de pessoas certas. Não quero com isto dizer que os ataques já não existam, nada disso, mas são menores, menos extenuantes e sei lidar melhor com eles. Sei dizer a quem está à minha volta como deve reagir se algo me acontecer junto deles. No meu caso é mesmo não me toquem. Não me abracem, não ponham um único dedo em mim pois sei que isto piora a minha condição. Podem falar comigo mas não insistam. Podem dizer-me para eu respirar, trazer-me água mas não me digam para eu parar, para falar, isso não, não funciona, pelo menos não funciona comigo.

A infelicidade, o medo de falhar, o ter de fazer algo obrigada, são coisas que facilmente desencadeiam em mim ataques de ansiedade ou puro pânico. 

Por vezes sinto com semanas de antecedência que estou a entrar numa fase em que os ataques vão voltar e isto apesar de horrível, porque nunca sei quando vão acontecer, ajuda-me a estar mentalmente preparada e fisicamente também. Custa muito perder o controlo, sentir o coração acelerado, sentir que tenho de respirar rapidamente e que mesmo assim o ar não chega onde deve...mas é algo com o qual tenho de lidar.

Outra coisa que por norma despoleta em mim este tipo de ataques são multidões, estar no meio de muita gente, locais confusos. Acho que é um bocadinho de trauma de infância, por me ter me perdido num shopping na altura de Natal, naquela época em que não haviam assim tantos shoppings e num só havia meio mundo concentrado. Depois há também as descolagens e aterragens durante os voos, os espaços muito apertados, a escuridão total e mais algumas coisas que sei que por medo - acima de tudo medo - despoletam este tipo de ansiedade crescente.

Se devia procurar ajuda? Talvez, e talvez o faça, afinal já deixei de ter medo, de sofrer em silêncio, mas não quero ficar dependente de medicamentos, já me chega o que meto no meu sistema de modo regular.

Cada um é diferente, cada ataque é diferente e este é um tema muito pessoal e vivido por cada um de um modo único, mas ao menos sei e vocês sabem que não somos os únicos e podemos falar entre nós sem medo de que alguém nos julgue.

Eu vivo com ansiedade constante e o medo dos ataques de pânico, mas sou feliz e continuo a viver um dia de cada vez.

7 comments

  1. Joana arrepiei-me com as tuas palavras a sério. Também tive uma fase horrível em que os ataques eram quase diários. Bastava-me fazer algo um pouco mais fora da minha rotina e desencadeava imediatamente um ataque. É realmente assustador... Desejo-te o melhor e continua com esse positivismo todo que eu consigo sempre aperceber-me quando te leio. És maravilhosa! <3
    THE PINK ELEPHANT SHOE // GANHA UM MEGA CABAZ DE VERÃO

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  2. Obrigada Joana pela partilha de algo tão pessoal. Apesar do tema abordado ter um cariz pesado e mau, que nos consume não só no aspecto físico, mas também psicológico, é bom saber que não estamos sós. Gostei muito do post!
    Beijinhos e muita energia positiva. :*

    Micaela

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  3. tenho ansiedade e ataques de panico ha tanto tempo que nem consigo precisar uma altura especifica, mas pelo menos aos 9 anos ja os tinha, tanto, ao ponto de molhar a cama quase todos os dias e hiperventilar.
    aos 16 tive uma crise tao grande, meti na cabeça que ia morrer a qualquer momento e acabei por ir a ala psiquiatra do hospital, onde a experiencia foi tao horrivel que acabou por ser um "abre olhos" para conseguir me mentalizar em ficar bem.
    apartir dai sempre tive altos e baixos, mas vou conseguindo manter, embora ha 3 anos +-tive um pequeno esgotamento por ter passado por muita coisa má na vida.
    hoje em dia mal me sinto mais ansiosa fico logo com um pouco de receio, por me lembrar de coisas passadas, e mais por ser uma coisa que ainda é tao "má tratada" em portugal... és logo rotulada de maluca ou depressiva, e isso entristece me..mas tento me focar no agora.
    embora apartir do momento que fui mãe que novas ansiedades ser formaram, como o facto de querer acompanhar cada momento dela, que nada lhe aconteça.. mas ao menos é uma ansiedade por bom motivo. :)

    https://rrriotdontdiet.blogspot.pt/

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  4. btw, essa foto tua é linda <3

    https://rrriotdontdiet.blogspot.pt/

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  5. Sabes como me identifico tanto neste post e nada mais digo.
    Tenho de bater palmas a este post por teres a coragem de partilhar algo assim tão pessoal.

    Beijinho grande.

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  6. Eu passei por situações semelhantes há uns anos e novamente mais recentemente e neste último caso resolvi recorrer à ajuda de uma psicóloga e acho qu foi sem dúvida uma decisão acertada.

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  7. É preciso muita força e coragem para partilhar um testemunho como este, Joana. A ansiedade faz parte da minha vida, mas nunca cheguei a ter ataques de pânico, felizmente.
    Em relação a ti, continua a rodear-te de pessoas positivas e boas e a fazer aquilo de que mais gostas e te dá prazer. Um grande beijinho!

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