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JOANA CARDOSO


PORTO,PT
27 anos, plus-size blogger e fotógrafa

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Eu não quero ter medo,mas tenho



Título estranho, assustador, devem vocês estar a pensar, mas hoje não venho falar de coisas engraçadas como medo de coisas irracionais com palhaços, ou estátuas - sim, existe e eu tenho. Hoje venho falar do medo do mundo...enquanto mulher, medo do mundo em pleno século XXI e que ainda hoje, com 27 anos me atormenta, especialmente sabendo que não sou a única que vive esta mesma realidade.

Vou começar por contextualizar um bocadinho, apenas porque foi esta situação em particular que me levou a pensar que não quero ter medo mas tenho.

Eu vivo numa cidade nos arredores do Porto, estou a menos de 10km do centro mas mesmo assim é uma cidade dormitório nos arredores. A minha casa fica situada numa zona de prédios numa área de encosta, numa rua que durante o dia tem imenso movimento. Em frente à minha porta tenho quatro lojas, ao longo da rua existem mais outras tantas, tenho uma Loja do Cidadão a 50 metros e uma zona de escolas (da pré-primária ao secundário, no qual andei) a menos de 150 metros. Basicamente é uma zona segura, sem grandes problemas. O início da minha rua parte de uma outra que sobre encosta acima durante várias centenas de metro. No cimo desta encosta, numas ruas paralelas e a mais de 500m de minha casa existe um bairro social.

Conheço pessoas muito boas que moram em bairros, conheço a realidade de vários bairros e sei que por lá há de tudo. Neste caso também sei que existem por lá pessoas menos boas que tendem a assaltar as lojas, casas e pessoas aqui das redondezas. É uma realidade, não é uma crítica ou ser racista ou xenófoba. Não estou a apontar o dedo a ninguém, a nenhuma etnia, estou apenas a dizer que existem pessoas menos boas que moram a menos de 1km de minha casa, quer seja naquele bairro ou não.


Pois bem, também sabem que tenho o Angus, um doce de cão que apesar de assustar muita gente porque quer ir brincar com todos os que vê passar na rua, é um assustadiço de primeira ordem que mais rapidamente eu teria que defender do que esperar que ele me defendesse - e daí nem sei, a lealdade de um animal, especialmente de um cão, pode ser algo nunca visto.

Eu passeio o Angus à noite, é o meu "horário". Antes dele passeava o Sebastião também à noite. Por norma saio entre as 22h e as 23h porque assim apanho pessoas a chegar, o café a fechar e ainda algum movimento na rua. Como também tenho vizinhos muito abelhudos, se eu gritar todos me ouvem e vêm logo à janela, isto é um facto.

Porém o medo surge quando chego tarde a casa, digamos depois da meia-noite e tenho de levar o Angus à rua. Não tenho medo, não quero ter medo...mas tenho, tenho receio de virar uma esquina e deixar de ver o meu prédio, ou de dar uns passos mais à frente.

A minha mãe perdeu a mania de ir espreitar à janela quando é tarde, ou de mandar o meu irmão comigo para me defender, isto a meu pedido. Odeio a ideia de precisar de um homem para me defender quando tenho duas mãos e dois pés para enfiar uma valente tareia em alguém, já o fiz e tornaria a fazer. Detesto acima de tudo ter medo, sentir que por ser mulher estou mais sujeita a um assalto, a uma perseguição, a que alguém me diga algo, mesmo que seja literalmente à porta de minha casa.

Com piropos porcos posso eu bem, andar no Porto é andar com um alvo invisível nas costas ou na testa, mas talvez por eu ferver em pouca água e ser muito tripeira, acabo sempre por responder à letra. Na maioria das vezes não tenho medo, na maioria das vezes são velhotes que se lhes estico a perna caem redondos no chão. Mas e quando são gigantes de 1,90m com alguns 120kg? Talvez me cale um bocado, talvez ande um pouco mais depressa.

Fogo, eu não quero ter medo, quero poder andar onde eu quiser, usando o que eu quiser - e vocês sabem que eu  nem uso nada que faça o trânsito parar - sem ter de olhar por cima do ombro, sem ter de andar com algo no bolso que sinta que possa usar para me defender, sem ter de agarrar o telemóvel pronta a chamar auxílio como alguém se agarre a um penhasco para não cair... Eu não quero ter medo por ser mulher, por ser jovem, por ser isto ou aquilo.

Não quero ter de ficar preocupada sempre que uma amiga vai à noite sozinha para casa e eu só fique descansada quando chega e me avisa (mas com amigos rapazes faço o mesmo). Não quero que as minhas futuras filhas, sobrinhas ou o que quer que seja tenham medo como eu tenho, como as minhas amigas têm, como sei que a maioria das mulheres que conheço têm.

Eu não vou deixar de andar na rua, fazer o que faço, levar o Angus à 1, 2 ou 3 da manhã...não vou deixar de viver e lutar para deixar de ter medo, mas tenho medo mesmo não querendo e sei que não sou a única.


1 comment

  1. Na minha antiga casa, em que morava sozinha e quando muitas vezes saía do trabalho à uma da manhã, morria de medo. A minha zona era calma, demasiado calma e era alvo de imensos assaltos, e eu uma miúda a chegar a casa. Eu não devia ter medo, estava simplesmente a ir para a minha casa. Mas o percurso de estacionar o carro e entrar na minha porta era tão doloroso Joana. Eu ia gelada de medo :\ e é uma tristeza. Estamos simplesmente a fazer a nossa vida :\

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