A gorda, prazer!



Não sei será de andar doente, pouco inspirada ou andar numa fase que ando muito resmungona, mas dei por mim a escrever esta publicação do modo "quero lá saber, vou ser sincera e ponto final". Sei que ao longo de quase oito anos de blog houve alguns momentos em que decidi abrir o jogo com vocês sobre muita coisa. 

Ora falei da alopecia e do hirsutismo, falei-vos da minha mudança de vida em que deixei a licenciatura congelada, falei-vos em parte sobre ser feminista (tema que não esgotei, nem de perto), falei-vos de muita coisa ao longo dos anos e sei que a partir de agora irei falar ainda mais porque decidi que o blog não é só um local de partilha de coisas bonitas, experiências divertidas ou produtos jeitosos que compro ou recebo, nem outfits que visto. O blog é para ser uma voz para o mundo, ou para quem o lê, e deve expressar aquilo que eu sinto, penso e acredito, mesmo que seja sempre de um modo muito politicamente correcto (mesmo que nem sempre o seja).


Hoje falo-vos sobre um tema que não é novo aqui no blog: o facto de eu ser gorda!

A imagem acima não abriu esta publicação porque não quero ferir susceptibilidades, mesmo acreditando que o o raio de umas mamas num soutien não devia ferir a susceptibilidade a ninguém, mas como por esse mundo fora há pessoas tão...nem sei que palavra usar...decidi guardar a foto para quem quer realmente ler esta publicação. Se as mamas vos incomodam não continuem! Se uma gorda que tira fotos a ela mesma de soutien vos incomoda, não continuem e boa viagem, porque por aqui acreditamos que respeitar o corpo e as escolhas de cada um é algo muito bonito.

Mas bem, voltando ao tema de "ser gorda". Não é novidade para ninguém, desde há quase oito anos que mostro fotos de mim mesma e nunca escondi que tenho peso mais, coxas grossas que roçam uma na outra, uma barriga roliça e um pequeno par de mamas...sim, porque para muita gente ser gorda implica que uma gaja tenha de ter uma bela prateleira mas esse não é o caso.

Desde há oito anos que lido com muita gente que me apoia e me diz "fazes muito bem" ou "é assim mesmo, devia haver mais gente como tu", porém também já lidei com tanto fat-shamming e anónimos mesquinhos que por momentos achei que tinha voltado aos anos de adolescência.


Nos dois campos, dos que apoiam e dos que mal falam, existem subgrupos. Nesses subgrupos há pessoas que adoro, que me fazem sentir bem, enquanto que noutros há pessoas com quem nem perco tempo, com quem quero perder tempo e dar uma lição e com outras que só me apetece mandar a certos locais mas não o faço para manter um certo nível.

A parte engraçada é que as pessoas a quem quero dar uma lição existem nos que me apoiam e nos que não o fazem. A segunda facção nem vale a pena ser mencionada, são os bullies da vida real e do mundo virtual, são pessoas mesquinhas com quem lidei toda a minha existência enquanto gorda, enquanto mulher, enquanto marrona (sim, apanhei porrada por tirar boas notas), enquanto tudo e mais alguma coisa, porque para algumas pessoas tudo serve como pretexto para arranjarem porcaria.

Mas bem, foquemos a nossa atenção no grupo de pessoas que são encorajadoras ou que o pensam ser.

"És uma inspiração!", "Devia haver mais pessoas como tu, sem medo de mostrarem que uma pessoa gorda se pode vestir bem", "Fazes muito bem de mostrares as coisas como elas são, sem medos". Estes são o tipo de comentários que sabem bem ouvir (ou ler), que me deixam feliz porque talvez a minha indiferença ao preconceito dê frutos nem que seja em apenas algumas pessoas que passam a perceber que eu posso ser tão ou mais fashion que qualquer outra rapariga com peso a menos ou a mais. São coisas como estas que me encorajam a continuar, a aceitar falar sobre a temática plus-size em entrevistas ou em eventos e que me faz querer debruçar ainda mais sobre o tema.


O que me irrita, das pessoas que acham que são encorajadoras são o tipo de comentários que a seguir menciono (apenas uma pequeníssima amostra).

"É mesmo assim! Mulheres como tu (ou nós), assim com curvas, é que são mulheres de verdade"
Desculpem lá, mas isto não!! Mulheres de verdade são todas e quaisquer mulheres que tenham (1) uma vagina ou (2) se identifiquem como mulheres (o caso de transsexuais em fase de transição ou já completamente transaccionados, por exemplo). Nenhuma mulher deixa de ser mulher, ou é menos mulher, por vestir um 28 ou um 58. O género feminino não se rege por uma etiqueta numa peça de roupa, nem pelo perímetro abdominal ou curvas possíveis de existirem no nosso corpo. Assim sendo este comentário não é inspirador, nem bom.

"Gordinhas como nós é que são bonitas."
Outro NÃO. Gordura não é formosura, ao contrário do ditado, mas também magreza não o é. Eu ser gorda, ou magra, ou com o peso ideal não quer dizer que eu sou mais ou menos bonita que X, Y ou Z. A minha beleza poderá ser medida, estupidamente, pelos padrões estipulados pela sociedade reinante actual. Por exemplo, posso ser bonita por ter uma cara simétrica, umas boas sobrancelhas, uns olhos bonitos...mas isso são factores e padrões em constante mutação. Ou seja, gordinhas são bonitas, magrinhas são bonitas, todas as mulheres são bonitas ou então não são. Há pessoas feias, é certo, mas até nos feios a beleza reside, basta saber ver para além daquilo que temos como pré-formatado pela sociedade em que estamos incluídos. Clichés à parte, a beleza parte do interior de cada um, afinal, e este ditado é muito mais assertado: "Quem feio ama, bonito lhe parece".

"Acho que sabes conjugar bem as peças para uma pessoa como tu."
Ok...este comentário pode ter tão de bom como me pode tirar absolutamente do sério. Se por um lado agradeço imenso por dizerem que sou boa a conjugar certas peças, por outro lado irrita-me o "pessoa como tu" ou "pessoas como tu", como se fôssemos uma espécie ou raça à parte, completamente estranha, com algum problema ou diferença que nos faz sobressair no meio dos humanos (do género Avatar). O que são mesmo as "pessoas como tu"? Os gordos? As mulheres? As pessoas que têm alguma confiança nelas mesmas e não têm medo de arriscar? Não entendo mas deixa-me com uma espécie de comichão psicossomática que não sei bem como coçar. Meus caros, eu sou uma pessoa normal, humana, com peso a mais como tantosss outros humanos mas só que tenho um blog, gosto de moda e gosto de me vestir como eu quero e me sinto bem. É isso que é ser uma "pessoa como tu"? Se sim, obrigada, se não é isso alguém me explique mas de modo gentil porque eu posso ser muito explosiva.


Não acredito no fat-shamming mas também não tolero que rebaixem outras pessoas para me fazer sentir bem de que modo seja. Cada um sabe de si, do seu peso, das suas escolhas, do que decide vestir, fazer, dizer. Eu sou gorda, sem problemas, gosto de moda, gosto de compras, de me vestir bem segundo aquilo que gosto e gosto de partilhar isto com vocês, neste espaço que é o blog. Quero continuar a fazê-lo mas para tal acredito que também tenho de ser sincera com as pequenas coisas que me tiram do sério e me irritam com quem por aqui passa ou já passou.

Este post não é uma ofensa directa a ninguém, por favor não o pensem. Nada se passou para que eu viesse para aqui disparar palavras. Foi, como disse no princípio da publicação, talvez pelo facto de estar doente, com falta de inspiração ou porque ando seriamente resmungona, mas nada mais do que isso.

A publicação já vai longa e na verdade acho que não toquei em tantos aspectos quantos gostaria mas por agora fico-me por aqui, deixar que a poeira assente e talvez ouvir a opinião de quem está desse lado.

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As fotos foram feitas a título pessoal, em modo de self-portraiture (foi assim que inicei a minha aventura no mundo da fotografia) mas que para mim serviram perfeitamente para ilustrar esta publicação).






Joana, 28 anos e natural da cidade do Porto. 
Sou uma fotógrafa de profissão, louca por viagens e sempre com demasiadas opiniões para dar. 
Este é o meu blog no qual escrevo desde 2009 e ele já mudou tanto quanto eu mudei ao longo destes últimos, quase, 10 anos.

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