Dachau



Como vos disse há algumas semanas atrás, decidi que este local em específico, seria o tema de um único post e aqui estamos nós. Dachau, um campo de concentração de uma das épocas mais negras da história da humanidade, a poucos quilómetros do centro de Munique e o primeiro que visitei na vida.

Não há muito que se possa dizer, em boa verdade vos digo e quem já esteve num destes campos em visita provavelmente concorda comigo. Antes de lá ir pensei bem se seria capaz de entrar, se não seria avassalador demais, mas quis fazê-lo e quando lá cheguei senti que era o caminho correcto a seguir. Pensei também muito bem se iria fotografar lá dentro, é totalmente permitido, mas apenas uma vez lá decidi que sim, que havia pontos a registar, era maior que eu e que queria partilhar convosco um bocadinho desta experiência, por mais impossível que seja explicar por palavras aquilo que realmente se presencia lá. 


Dachau é bastante pequeno, comparativamente a campos como o famoso Auschwitz-Birkenau, este é um campo pequeno, que se percorre em pouco mais de duas horas, indo de ponta a ponta, mas há uma razão. Este foi o primeiro campo em solo alemão e foi o protótipo para todos os outros campos que viriam a ser construídos. Entrou em funcionamento em 1933 e vigorou até Abril de 1945, tendo sido o único campo que funcionou durante todo o período de vigência do regime Nazi.

Se no início era um campo de presos políticos, rapidamente - por volta de 1935 - começou a receber homossexuais, Testemunhas de Jeová, emigrantes e rapidamente um campo que serviria para 5.000 presos chegou a ter uma lotação de mais de 188.000. Neste campo registaram-se oficialmente cerca de 32.000 mortes mas a verdade é que os número poderão ter sido bastante superiores.

Hoje em dia o campo de Dachau está imensamente "pobre" em termos daquilo que teria sido durante os 12 anos em que funcionou, sendo que muitas das infraestruturas foram desmanteladas e o facto de o campo ter sido um protótipo a uma escala reduzida dos muito maiores que viriam a ser construídos. 


Esta "pequenez" não lhe tira nenhum significado, ao contrário do que ouvi de outras pessoas, continua a ser um lugar onde o ambiente é pesado, a energia sente-se de um modo palpável e a onde morreram muitas pessoas, não milhões como em Auschwitz mas mesmo assim demasiadas vidas.

Até meados de 1944 era um campo exclusivamente masculino, mas neste ano começaram a ser recebidas mulheres no campo, especialmente mulheres judaicas e os relatos e textos que por lá se encontram, numa espécie de museu macabro que preenche um gigante edifício onde ficavam vários serviços, a cozinha, banhos e afins.

Se os homens sofriam horrores as mulheres sofriam o mesmo com a agravante de serem recorrentemente violadas e despidas em frente a todos. Para além disso todas as mulheres que chegavam grávidas ao campo, a não ser que estivessem mesmo no final da gravidez, eram obrigadas a abortar. Mesmo assim era entre as prisioneiras mulheres que se notava o maior companheirismo e bondade. 


Entre trabalhos forçados, experiências médicas de um horror total e as famosas marchas da morte, o campo de Dachau é realmente um daqueles sítios que nos faz parar, pensar e ver o horror que todo aquele período foi, quem o viveu, quem lá morreu. É impossível percebermos por completo mas fica-se com uma noção mais clara, mais pesada daquilo que foi aquele e muitos dos outros campos.

Foi também das vezes, se não a vez em que senti mais frio e vento na vida e digo-vos isto sendo que eu estava com botas e casaco de neve, daqueles que aguentam até 20 graus negativos. Naqueles momento quase chorei ao perceber que se eu tinha frio daquele modo, o que sentiriam as pessoas com apenas aquelas roupas finas e rasgadas que conhecemos tão bem.

Não é um campo grande, tão pesado como o mais famoso de todos, mas não deixa de ser um marco tenebroso daquilo que a humanidade foi capaz de fazer aos seus iguais marcando para sempre não apenas o seu povo, a nossa Europa mas todo o mundo.

Não se paga para entrar em Dachau, como não se paga - segundo sei - para entrar em nenhum campo, apenas se quiserem um guia áudio existe um valor cobrado. Recomendo que visitem, não por interesse mórbido mas realmente para, quem nunca visitou um, ter um contacto directo com algo que todos devíamos conhecer uma vez na vida.






Joana, 28 anos e natural da cidade do Porto. 
Sou uma fotógrafa de profissão, louca por viagens e sempre com demasiadas opiniões para dar. 
Este é o meu blog no qual escrevo desde 2009 e ele já mudou tanto quanto eu mudei ao longo destes últimos, quase, 10 anos.

INSTAGRAM