O privilégio da minha nova morada



Mesmo que não tenhamos a noção a verdade é que eu, juntamente com a maior parte dos meus amigos e pessoas que conheço, fazemos parte de uma minoria privilegiada por mais diversas razões. No meu caso é ser uma mulher branca, num país evoluído, onde tenho plenos direitos sobre mim e tanta coisa mais. É também ter o privilégio de, num momento em que vejo tanta gente a sair do Porto, eu mudar de casa e vir morar exactamente para a cidade que tanta gente deixa para trás por se estar a tornar tão cara.

A verdade é que tivemos uma sorte daquelas que acontece quase por milagre. Andávamos na busca de casas há quase meses e de repente o meu pai viu uma casa no Porto, bem localizada, a bom preço, num prédio antigo mas basicamente toda remodelada por dentro. Eu achei que era bom demais, jamais tinha colocado o Porto, cidade, como parâmetro de pesquisa porque sabia que as casas eram caras, com T1's a custar 550€ e a terem o aspecto de pocilgas ou caixas de sapatos. Tinha-me ficado sempre pela periferia e equacionamos até mudar-nos para mais longe e para um local mais sossegado mas com acessos rápidos ao Porto.

Visitamos a casa, no mesmo fim-de-semana decidimos ficar com ela e nem visitamos mais nenhuma. Parecia boa demais mas era verdadeira, num sítio porreiro, com uma vizinhança calma, mais idosa mas que se revelou um amor. Não sei se foi sorte ou merecimento, mas começamos as mudanças quase de imediato. Guardei para mim, contando apenas às pessoas que me são mesmo mais chegadas, e mudei-me de casa numa semana de imenso trabalho, de calor, com 12 anos de uma casa para transportar em caixas.

... mudei-me de casa numa semana de imenso trabalho, de calor, com 12 anos de uma casa para transportar em caixas.

Mudei-me com a minha família, tenho 28 anos e ainda vivo com eles e não tenho vergonha disso, qualquer dia faço um post sobre isso e sobre esta mania parva de julgarmos que alguém é muito novo ou muito velho para fazer isto ou aquilo.

Quatro pessoas e um cão, 12 anos de vida arrumadas, transportadas, empilhadas. Foi há menos de duas semanas e já me sinto aqui mais em casa do que me sentia na minha outra residência.

Sou feliz com a luz em todas as divisões, com o vizinho do primeiro andar com 80 e muitos anos e com a sua cadela que são uns amores, com o andar meia dúzia de metros e ter tudo, de frutarias, a florista, correios, talhos, autocarros e até metro... adoro esta casa, a sorte que é tê-la e vou partilhar mais coisas convosco.

Sou mesmo uma privilegiada por morar no Porto, nesta altura em que a cidade parece ser só um sítio de turistas.






Joana, 28 anos e natural da cidade do Porto. 
Sou uma fotógrafa de profissão, louca por viagens e sempre com demasiadas opiniões para dar. 
Este é o meu blog no qual escrevo desde 2009 e ele já mudou tanto quanto eu mudei ao longo destes últimos, quase, 10 anos.

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