Tenho 28 e vivo com os meus pais


Achei que não era tarde nem era cedo e se já vos tinha dito por aqui que ia falar sobre isto, então achei que estava na altura certa de trazer o assunto à baila e falar sobre as coisas sem rodeios nem meias medidas. Eu sou a Joana, tenho 28 anos e contra muitas expectativas da sociedade actual na qual me insiro, vivo com os meus pais e não tenho vergonha nisso, bem pelo contrário.

Devo começar, ou pelo menos começar este parágrafo, por dizer que vivemos numa sociedade completamente "louca" no que toca a isto de não ter idade para sair de casa ou já não ter idade para viver em casa - leia-se casa dos pais ou família. Numa sociedade em que as "normas" são cumpridas à risca eu teria acabado ali a minha licenciatura pelos 22/23 e pelos 25 anos já teria feito as malas e encontrado o meu cantinho. A sociedade acha que é assim e leva-nos a acreditar que assim deve ser. Não temos trabalho estável? Paciência. Não temos dinheiro suficiente? Problema nosso, arranjemos um segundo trabalho ou uma caixa de sapatos para morar. 

A verdade é que nos dias que correm os 20's para muitos de nós são uma década de incertezas imensas. Os 30's também, os 40's também...bem, a vida toda o é mas os 20's são a idade em que devemos começar a ser adultos, tomar conta de nós mesmos e fazer-nos à vida. Tudo isso é verdade, mas também vivemos numa altura em que estamos a sair ainda de uma crise económica, em que estabilidade financeira ou é escassa ou nem existe, em que os trabalhos são precários e nem toda a gente arranja um, em que tanta coisa se passa e que nos impossibilita de viver uma vida como os nosso pais viveram nos anos 80 e 90. A verdade é que temos de colocar esta necessidade social de fazermos tudo acontecer nos nossos 20 anos um bocadinho de parte graças a tudo isto.

Eu por mim falo e dou o meu exemplo. Sou freelancer, trabalho por conta própria, tenho um pico anual de muito trabalho e outro com pouco. O que recebo dá para o básico mas se tivesse de pagar casa, contas e ainda esticar o orçamento para comer, vestir-me e "viver", não ia dar. Não é por isto que não tenho vergonha de viver em casa, não tenho vergonha porque gosto de estar em casa, adoro a minha família e sei que sou uma mais valia.

Durante muito tempo achei que era um estorvo, que estava ali a gastar o dinheiro deles para comer, viver e fazer tudo. Não tinha emprego, não tinha prospecto de um futuro próximo brilhante e honestamente muitos factores juntos desgastavam o lado mental de um modo sério. Foi quando comecei a mudar esta mentalidade e comecei a perceber que apesar de sim, ainda ser um gasto por casa tenho também muito a dar.

Vivo e trabalho em casa, juntamente com o meu pai. Passamos o dia na mesma casa mas em espaços separados. Passamos horas sem nos ver, não nos chateamos um ao outro e honestamente dá-mo-nos imensamente bem. 

A minha mãe tem horários que não lhe permitem ser "dona de casa" inteiramente. Também não dá para ir às compras e honestamente até prefiro porque ela é um bocadinho dada ao desperdício e às compras por impulso.

O meu irmão passa o dia fora, entre trabalho e namorada, vem a casa pouco tempo mas é sempre bem-vindo.

A verdade é que mesmo sendo a casa deles eu é que sou a "dona da casa". Eu trato das compras, de fazer a comida, de arrumar, manter a casa, de lembrar as pessoas que têm isto ou aquilo para fazer e de ainda ir aos meus avós tratar deles - medicação, banho ao meu avô que está semi-acamado, etc - e das compras e necessidades médicas e outras.

No fim de contas não sou um estorvo, do meu jeito acabo por ser eu a manter a casa e família estabilizada. Ganho para os meus gastos, para algumas compras para casa, para isto e para aquilo e não tenho de me preocupar com muito mais - se bem que preocupo.

Mesmo tendo 28 anos e muitas vezes querendo um espaço meu fora daqui a verdade é que não me imagino a fazê-lo agora porque não quero morar sozinha - solteira mas boa rapariga - e sentir-me isolada. Não quero ir para longe do Porto onde fica o meu foco de trabalho. Não quero ter de matar-me a trabalhar em 2 ou 3 empregos para poder pagar contas e sobreviver quando não preciso - se precisa fazia e farei, se algum dia for o caso - portanto tenho a idade que tenho, vivo em casa, tenho o meu quarto, em breve o meu escritório noutra divisão, divido a casa com a família e o Angus e não podia ser mais feliz e sentir-me bem.

Não é sociedade que dita as minhas regras, sou eu e quem eu deixo que o faça.






Joana, 28 anos e natural da cidade do Porto. 
Sou uma fotógrafa de profissão, louca por viagens e sempre com demasiadas opiniões para dar. 
Este é o meu blog no qual escrevo desde 2009 e ele já mudou tanto quanto eu mudei ao longo destes últimos, quase, 10 anos.

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