Um sorriso não é um convite!


Estou desde ontem com as entranhas a remexerem-se e a pensar se escrevo esta publicação ou não! Já falei sobre feminismo, já contei que nem sempre me sinto segura mas hoje venho falar da merda - sim, leram bem - do assédio, daquele real. do que nem tem palavras sequer mas que nos deixa completamente revoltadas. Venho contar-vos o que acontece até à porta de casa, em plena luz do dia.

Ainda nem 24h se passaram e ainda estou a ferver. A minha Segunda estava a correr bem, tinha ido ao LIDL e estava a voltar a casa, a fazer a manobra para meter o carro na garagem porque aqui param sempre demasiado perto das entradas e vejo um senhor dentro do carro em que eu não queria bater a fazer-me sinal que eu tinha espaço para manobrar. Óptimo! Levantei a mão a agradecer e meti o carro na garagem na parte de trás do prédio. Volto à frente, para fechar o portão e como o senhor ainda estava dentro do carro sorri porque acho que é algo simpático.

Nisto o tipo pisca-me o olho e mesmo assim eu sorri na mesma porque podia ter sido algo normal, à pessoas que agradecem assim ou respondem de volta e nem é por mal e eu juro que não vi mal algum na coisa. Nisto começa o gajo a mandar beijos para o ar. Eu fiquei logo de cara fechada. O tipo, que estava reclinado a descansar - suponho eu, nem quero imaginar outra coisa - começa a acenar e a fazer gestos do género "anda para aqui". Eu agarrei nos sacos, dei meia volta e entrei no prédio o mais rápido possível.

Deixei as coisas em casa e sabia que tinha de sair de novo. O meu pai estava em casa mas eu calei-me porque este tipo de merdas é o pão nosso de cada dia e eu sentia-me mais que suficiente para mandar vir com o gajo ou sabe-se lá que mais. Desço, saio com cuidado no portão mais à frente para não ter de passar ao lado do carro do tipo e começa tudo de novo. Beijos, gestos, acenos, piscar de olhos. Eu comecei a ferver, pior ainda quando uns metros acima reparo que me esqueci da carteira e tenho de voltar atrás e passar de novo por ele.

Mais uma rodada de gestos, de acenos, de movimentações de mão a dizer "anda aqui ter comigo". Ainda abri a boca mas nem falei, fui directa a casa, tornei a sair e fui onde tinha de ir. Voltei e ele ali estava. Comecei a ter medo, medo por ser mesmo na porta de minha casa. Ao telefone, quando passei perto dele nem nomes disse, entrei sem dar muito nas vistas e em mim sentia que o gajo não só sabia onde eu morava como podia tentar entrar mesmo que fossem quatro da tarde.

Só voltei a sair com o meu pai e o Angus. O gajo tinha o braço a cobrir o rosto, apenas o descobriu quando o meu pai e o Angus deram a volta ao prédio e eu fiquei na frente para abrir o portão. Olhei-o nos olhos e dei-lhe o olhar de maior olhar de nojo que consegui, queria que ele sentisse que se tentasse algo eu não ia ficar nem calada nem quieta.

Tive medo, 24h depois ainda estou do género "e se ele aparece de novo aqui?". 24h depois sinto que nada muda, os tempos passam e parece que as merdas ainda pioram.

Ontem foi na porta de minha casa, por norma é quando vou a algum lado. Ontem foram só gestos e sons, mas já vi masturbações, já me tentaram tocar ao de leve. Mas e quando não é assim? E quando nos tocam mesmo, nos ferem, nos violam, nos deixam de rastos mental e fisicamente?

...um simples sorriso levou a que ele sentisse que podia sem qualquer problema começar a insinuar coisas, deixa-me mal disposta e com medo. 

Ainda criamos uma geração de rapazes e homens em que "faz que é da idade" e "vai que ela gosta" são ensinamentos normais. Ainda criamos uma geração de raparigas e mulheres que acham que "são só malucos, deixa lá isso" ou "anda e não olhes" são as vias a tomar, o que têm de fazer, juntamente com o saberem-se comportar, vestir ou estar.

Eu ontem apenas sorri para um idiota que me ajudou a não bater no carro dele e um simples sorriso - que eu estava de jeans largos, tshirt sem decote e sapatos - levou a que ele sentisse que podia sem qualquer problema começar a insinuar coisas, deixa-me mal disposta e com medo. 

Era um tipo nos seus trinta e muitos, não era alguém demasiado velho que ainda acha que os ensinamentos de outros tempos "é que valem", nem era uma criança que ainda não sabe como expressar o que sente. Era um homem feito que me deixou com medo.

Passaram-se 24h e sinto que se sair neste momento à rua vou estar com sete olhos a olhar para todos os cantos.. 






Joana, 28 anos e natural da cidade do Porto. 
Sou uma fotógrafa de profissão, louca por viagens e sempre com demasiadas opiniões para dar. 
Este é o meu blog no qual escrevo desde 2009 e ele já mudou tanto quanto eu mudei ao longo destes últimos, quase, 10 anos.

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