Dia da Mulher e tudo o que isso implica



Dia Internacional da Mulher. Começo a escrever este texto e ainda estamos a 7 de Março, o primeiro Dia de Luto Nacional pelas Vítimas de Violência Doméstica (decretado a 28 de Fevereiro de 2019). Neste dia já apareceu nas notícias mais uma mulher que morreu estrangulada às mãos do marido, no dia em que iria assinar os papéis do divórcio. Neste dia apareceu nas notícias a cabeça de mulher encontrada num saco do lixo numa praia de Leça da Palmeira, sem se saber ainda quem é ou o que aconteceu ao certo. Desde o início de 2019 já morreram 13 mulheres, 1 homem e 1 criança de 2 anos vítimas de violência doméstica. 

Apesar de tudo isto ainda vemos as flores, chocolates e prendinhas que o comércio acredita serem a melhor forma de homenagear as mulheres. Deixem-me que vos diga: não é! Porreiro receber coisas? Sim, claro que sim. Mas que resolve isso? Que fazem essas prendas por nós? Vão diminuir a desigualdade? Vão diminuir os crimes contra as mulheres? Não. Mas vejamos algumas estatísticas.


ESTATISTICAMENTE EM PORTUGAL
-A diferença salarial pode chegar quase aos 30% sendo que a média fica pelos 16%
-Continuam a ser as mulheres as mais violentadas nas relações, a mais abusadas sexualmente e a maior parte das vítimas de crimes deste género
-Mesmo sendo as mulheres a perfazer o maior número de pessoas com alto grau de escolarização - falamos de nível superior - são ainda assim as que têm menos oportunidades de trabalho em cargos que pedem a sua especialização, e no geral também
-Continuam a ser as mulheres as que encontram em casa quase mais 2h de trabalho extra, não remunerado, diariamente

Tudo isto faz parte do relatório da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, não fui eu que inventei.

Por cá é também mais caro ser mulher do que ser homem. Apesar de os produtos de higiene pessoal feminina serem taxados a 6%, o imposto mínimo, temos ainda de contabilizar gastos como - e não sendo igual para todas, é claro - por exemplo: os contraceptivos orais, já que várias marcas indicadas não são oferecidos nos centros de saúde; a medicação necessária para as dores menstruais e dismenorreia associada; a necessidade de roupa interior extra, como é o caso do soutien, já que muitas mulheres não podem prescindir desta peça devido ao tamanho mamário que causa desconforto sem suporte. Nem falo das normativas impostas pela sociedade em geral, como as depilações, a maquilhagem, os cuidados a nível do cabelo, unhas, pele, qualquer coisinha que nos faça ficar mais "apresentáveis" para o mercado de trabalho ou qualquer outra coisa.

Mesmo com IVA a 6% podemos gastar até 10€ por mês em produtos de higiene. Claro que há as opções do copo menstrual, produtos mais baratos mas com inferior qualidade, mas nem todas as mulheres são iguais.

Por mim falo que por norma gasto uma embalagem de tampões e outra - nem sempre completa - de pensos na altura da menstruação (não consigo usar tampão sem a segurança extra de um penso nos dias de maior fluxo), ou seja, mesmo procurando as promoções sai-me a cerca de 5€/mês, o que perfaz um total 60€ ao final do ano. A isso soma-se a compra de produtos como o Trifene que ronda os 6€, que no meu caso opto por comprar antes uma versão genérica do Brufen (Ibuprufeno) o que me acaba por descer a conta para cerca de 2€.


Se em outros anos vos falei da necessidade deste dia, dando na cabeça às mulheres que usam erradamente aquilo que é ser feminista, se também vos falei da minha visão do feminismo sendo eu uma privilegiada, este ano mostro-vos apenas a realidade nacional daquilo pelo qual ainda debatemos, no dia 8 de Março e todo o ano, porque somos mulheres 365 dias, sem folgas, sem interregnos, sem férias desta condição que pode ser uma dádiva ao mesmo tempo que é uma condenação.


Malta, agradeçam as flores e prendas mas peçam respeito, peçam divisão nas tarefas domésticas, peçam e lutem pelo vosso lugar em quadros superiores, em empregos. Lutem por poderem ser mães ou não serem, serem donas do vosso corpo e aquilo que fazem com ele. Lutem por ficar em casa ou por ter uma carreira. Lutem não para ficar acima de ninguém mas para atingir os mesmos níveis, haver uma paridade e igualdade que mostre que não baixamos os braços nem cedemos à doutrina do "belas e recatadas".


Aproveitem este dia para celebrarem o serem mulheres e o que já conseguiram mas também para, tal como devia ser, lutarem pela igualdade nas coisas mais básicas do dia-a-dia. Mesmo que cada país tenha uma luta diferente e uma maneira de celebrar distinta, lembrem-se que neste dia a ideia base é encontrarmos umas nas outras a força e determinação que precisamos para pedir o que é nosso , ou devia ser nosso, por legitimidade.

Usem este dia para lutar de algum modo. Saiam à rua para uma manifestação (vejam o final deste post), façam uma doação a uma entidade ou associação com uma causa que ajude as mulheres em qualquer área que preferirem. Vejam filmes feitos por mulheres, leiam livros escritos por mulheres, comprem produtos feitos por mulheres que têm pequenos negócios. Empoderem outra mulher ou quantas conseguirem. 

Façam uso do privilégio do país em que vivem em que podem usar a vossa voz, sair à rua, lutar e protestar. Em que podem livremente escrever um texto como estou a fazer neste momento. Nada muda se nós não mudarmos, se não colocarmos em prática aquilo em que acreditamos. Aproveitem este dia e sejam gratas por poderem fazer por vocês mesmas, por quem vos segue na vida ou até por qualquer outra mulher ou pessoa.

Embora reconheçamos este dia como uma maneira de celebrar o quão longe chegamos, precisamos também de reconhecer o que ainda precisamos e como podemos atingir esses objectivos. Assim sendo, este ano, comemorem por todas as mulheres que conhecem.




Deixa ainda um aparte. Dei voz, juntamente com todo o coro Cantare - a minha alegria de 2019 - a esta iniciativa. Uma greve feminista com um manifesto que vale a pena ler. Uma greve de quem trabalha ou de quem fica em casa, de quem quer lutar pela igualdade na vida, na carreira e em tudo. 








Joana, 28 anos e natural da cidade do Porto. 
Sou uma fotógrafa de profissão, louca por viagens e sempre com demasiadas opiniões para dar. 
Este é o meu blog no qual escrevo desde 2009 e ele já mudou tanto quanto eu mudei ao longo destes últimos, quase, 10 anos.

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