As Europeias, o Alabama e o Não queria entrar na política mas aqui estou eu



Verdade, quase dez anos de blog e consegui não enveredar por discursos políticos até hoje. O feminismo para mim não é política portanto nunca o contei ou contarei como tal, de tal como que esta publicação é apenas em parte sobre política e o resto sobre direitos básicos que deveriam ser universais É preciso viver debaixo de uma pedra para não se saber que as Europeias ocorrem já dia 26 deste mês - ou este Domingo, 19, para quem como eu pediu o voto antecipado - e que o estado do Alabama, nos Estados Unidos da América, promulgaram uma lei tão nojenta que ao invés de lhe chamar uma promulgação se deveria chamar de um retrocesso civilizacional em forma de lei.

Se só aqui chegaram e só leram este primeiro parágrafo e mais nada sabem sobre o blog, permitam-me dizer que este é um blog de lifestyle onde por norma se fala de moda, beleza, fotografia, viagens e um sem fim de coisas que adoro fazer na vida. Para além de tudo isso a pessoa que escreve este blog - olá, sou a Joana - é uma nortenha sem muitas papas na língua, que mesmo sendo apartidária vai sempre cair ao centro-esquerda (mais à esquerda) e que tem um sem fim de crenças, entre elas o feminismo, o direito de cada um a decidir o que fazer com o seu corpo e o facto de apregoar com convicção aquilo que para si é correcto. Se isto vos incomoda peço que parem de ler agora, ninguém vos força a estar aqui, a ler ou a compactuar com o que vou escrever de seguida.

Vou começar na ordem inversa relativamente ao que está no título, isto porque acredito que uma coisa levará facilmente à outra. Pois bem, é sabido por qualquer pessoa minimamente informada neste planeta que o estado do Alabama promulgou uma lei que proíbe na totalidade o aborto, sendo que o único momento em que tal poderá ser considerado será no caso da gestante correr risco de vida devido há gravidez ou caso o embrião ou feto apresentem alguma má-formação. Isto deixa de parte todas as mulheres que forem vítimas de abuso sexual, quer tenham 30 ou 11 anos de idade. Isto deixa de fora qualquer mulher que queria simplesmente um aborto porque a sua escolha é não ter filhos por qualquer razão naquele momento. Isto deixa de fora uma criança que seja violada e que veja a sua infância e vida arruinada, tal como o seu corpo e saúde mental, por ter de carregar um filho que nunca quis, que nunca pediu e que foi gerado contra a sua vontade. O nojo que sinto é tão grande que por vezes nem consigo exprimir verdadeiramente tudo aquilo que sinto relativamente a isto.

Esta lei foi votada por homens, mas assinada por uma mulher. Esta lei criminaliza não quem aborta mas quem fizer o procedimento médico, crime esse que poderá chegar aos 99 anos de prisão, sendo que um médico que efectue um aborto a uma mulher será punido com mais tempo de prisão, para além de perder a carreira e tanto mais, do que um violador que engravide uma mulher. Assim sendo ninguém vai querer fazer abortos por medo de arruinar a sua própria vida.

Isto não é um movimento pro-life, é um movimento pro-birth, a favor do simples nascimento, já que ninguém depois disto promulgou uma lei que salvaguarde o crescimento da criança, a educação, o direito a uma casa, roupa, comida e tanto mais. Ninguém promulgou uma lei que dê à mulher os meios necessários para ter e criar um filho, sejam eles financeiros ou psicológicos. Portanto não é um movimento pro-life porque pro-life deveria centrar-se na vida e não apenas no facto de fazer crianças nascer mesmo quando ninguém as quer. Chega-se assim a um ponto em que temos outras pessoas a decidir o que fazer com o corpo da mulher, a torná-la numa simples parideira sem qualquer autonomia sobre o seu corpo e a sua vida.

Isto traz-nos a Portugal, onde temos direito ao aborto, sendo este legal e tendo acesso ao mesmo no Serviço Nacional de Saúde. Em Portugal o direito ao aborto é bem claro.

-Até há 10º semana a pedido da gestante
(A Lei nº 16/2007, de 17 de Abril indica que é obrigatório um período mínimo de reflexão de três dias e que tem de ser garantido à mulher "a disponibilidade de acompanhamento psicológico durante o período de reflexão" e "a disponibilidade de acompanhamento por técnico de serviço social, durante o período de reflexão" quer para estabelecimentos públicos quer para clínicas particulares. A mulher tem de ser informada "das condições de efetuação, no caso concreto, da eventual interrupção voluntária da gravidez e suas consequências para a saúde da mulher" e das "condições de apoio que o Estado pode dar à prossecução da gravidez e à maternidade;". Também é obrigatório que seja providenciado "o encaminhamento para uma consulta de planeamento familiar.")
-Até há 16ª semana no caso de violação ou crime sexual
-Até há 24ª semana por má-formação do feto
-Em qualquer momento no caso de risco para a grávida ou no caso de fetos inviáveis

Porém, mesmo este sendo um direito vigente neste momento devemos contar sempre, mesmo que pouco provável, com um retrocesso como no caso do Alabama, algo que pode acontecer a qualquer momento. Aqui entram as Europeias e toda a necessidade de votar.

Não é mentira que em vários países europeus os movimentos de extrema-direita, com fortes raízes ideológicas muitas vezes apoiadas pela religião, têm vindo a ganhar força e vários assentos parlamentares. Em Portugal parece que está tudo estável mas mesmo assim começam a aparecer vários partidos que não só conseguiram um número suficiente de apoiantes para formar partido, como começam a ser opções a ter em consideração por parte de algumas pessoas, especialmente por parte de insatisfeitos crónicos ou pessoas com menos formação.

Como cidadãos devemos votar, porque temos direito a tal, um direito que infelizmente temos como algo certo e ao qual ligamos pouco. Pior ainda quando falamos do direito ao voto por parte das mulheres, algo que nem todas têm neste mundo, algo que custou tanto a conseguir e que hoje em dia tantas mulheres da minha geração vêm o direito ao voto como algo completamente banal. Ninguém nos diz que daqui a uma semana, um mês, um ano ou pouco mais não sobe ao poder um partido que nos retire esse e vários outros direitos. Por algo ser certo não quer dizer que o seja para sempre e as batalhas que se travaram pelos direitos devem ser mantidas numa luta diária e isso implica que devemos votar porque temos o direito a, porque temos os meios para, porque só assim se consegue algo e não através do "é tudo sempre igual".

Eu pedi o voto antecipado, demorou menos de 30 segundos - fiquei parva com algo tão eficaz quando esperava tanta complicação - e dia 19 vou votar com um simples papel e o meu Cartão de Cidadão porque é o meu direito enquanto cidadã de o fazer e porque posso, porque quero, porque acredito que mesmo que não vá para lá quem eu quero o meu voto conta para algo, quanto mais não seja para mostrar que aquele partido ou aquelas pessoas têm quem as apoie e que talvez no futuro cheguem a um lugar importante.

Portanto quem vota não deve votar só porque sim, a informação é gratuita e está ao alcance de todos. Procurem nos partidos e nas suas missões, declaração de princípios e propostas. Não votem por amigos, familiares ou outros, votem por aquilo em que acreditam porque só o voto como bandeira máxima de um país civilizado e democrático é capaz de mudar alguma coisa que seja, para o bom ou para o mau. Não tenham os vossos direitos como certos e eternos porque tudo muda, na política, na vida, em tudo. Se hoje fazemos parte de uma União Europeia, amanhã podemos estar sozinhos e de volta a um regime ditatorial, o que o impede é os cidadãos, os que votam e os que fazem as suas vozes serem ouvidos por mais pequenas que sejam.

Sem me alongar mais deixo-vos com alguns links óptimos para quem ainda tem dúvida sobre o voto, em quem votar ou "para que raio serve isto tudo".






1 comentário:

  1. Não imaginas o quanto gostei deste post Joana!
    E os links que deixaste no fim vão ser já a minha próxima leitura, obrigada por partilhares.

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Joana, 28 anos e natural da cidade do Porto. 
Sou uma fotógrafa de profissão, louca por viagens e sempre com demasiadas opiniões para dar. 
Este é o meu blog no qual escrevo desde 2009 e ele já mudou tanto quanto eu mudei ao longo destes últimos, quase, 10 anos.

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